Ateou fogo ao seu corpo após tê-la amarrado numa arvore, assim não necessitava mais da verdade de que sabia existir em algum lugar por entre as palavras dela, que não eram ditas. As mentiras poupavam o tempo desnecessário, contornavam o incomodo lugar comum já não mais compartilhado. Ele sabia, queria amá-la, mas não havia mais espaço. Faltava o que lhe fora oferecido como condição e que nunca o convenceu completamente. Tarkovsky idealizava esse momento, onde um corpo em chamas pudesse demonstrar a falta e por algum motivo, a não realização dessa seqüência, o incomodava enquanto criador, pois ainda não fora capaz. A mentira transformada em chamas, queimando os últimos momentos da razão, como só possível num filme.
"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Um corpo em chamas (Tempo de Viagem)
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