"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tudo o que é teu, leva!


Tudo o que é teu continua intacto

e passa pelo tempo que não passa nunca,

num só reflexo da memória.

Não há momentos bons ou ruins,

todos fazem sentir a presença,

o que me faz ser no absoluto de qualquer acontecimento cabível

e revelado num espaço infinitamente pequeno da lembrança e do tempo.

O tempo não esquece nem lembra,

tenho o passado e o futuro mas nunca o presente,

disso decorre a angustia por querer movimentar o passado em virtude do que já foi presente um dia.

Tudo o que é teu não pode ser mudado,

aquele encontro inesperado na calçada,

o encontro dos corpos

e nos lábios a força fundamental da vida.

Nada que foi em tua presença existe sem você.

São tuas as ruas,

o meu corpo,

tudo o que faz você aqui.

As palavras que nunca lembro

e que disseste possuída por mim.

Éramos dois vivendo pra um mundo impossível de solução.

Sem saber trocamos as lembranças em cada outono,

mas são sempre as mesmas atravessadas por paradoxos insolúveis.

Coisas que o tempo insiste.

Tudo o que eu tenho de ti é teu, leva.

Leva o tempo que deixaste em mim, o que te mantém,

leva.

Afasta de mim esse outro ser,

esse eu que não quer mais te querer,

leva o que é teu e deixa intacta a minha ilusão.

Agora sem mais pra sentir,

leva o tempo esquecido na tua lembrança,

cemitério de minhas mortes.


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