"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sob que máscara retornará o recalcado?

A Fábrica do Poema

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra
Tornei-me perito em extrair faíscas das britas e leite das pedras
Acordo
E o poema todo se esfarrapa fiapo por fiapo
Acordo
O prédio, pedra e cal, esvoaça como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo
E o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido
Acordo
Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono
Nem dormir deveras
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?


Adriana Calcanhotto e Waly Salomão

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