"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Metáforas da Loucura II


Voltando,
encontro a porta entreaberta
e por um momento penso que recebi uma visita enquanto estive fora
E o pensar mais uma vez se dissolve na força do desejo
Esse desejo que me força a pensar somente para realiza-lo
Estava procurando por mim!
Entrei e na cama havia um bilhete
Engano,
Novamente me perdi na confusão dos sentidos
Pareço criar provas contra a minha própria ilusão
para que o tempo não leve logo tudo o que ainda tenho
A verdade é que não há nada e que criamos tudo para darmos significação ao mundo
ao nosso mundo
aos nossos desejos
Eu sei
mas nada disso deixa de acontecer por força da razão
Metáforas da loucura e da vida:
quando encontro um sentido.





quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Metáforas da loucura


Tive a sensação
de nunca ter estado presente
e por isso sei que fui por inteiro
tudo o que podia ser
e ainda sou
Como se não fosse possível pensar
tão abstrato que se perde na intelectualidade
Dele não se sabe falar
não se ouve
e nada se vê
e tudo não passa de uma especulação
a ponto de não existir
Não houve espaço para a invenção
mesmo assim sempre resta um vazio
o de quando se vai embora
deixando tudo no mesmo lugar
no seu lugar
Silêncio da ausência
o mesmo silencio da presença
Metáforas da vida e da loucura:
do amor nada se sabe.


O Guardador de Rebanhos III


Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...


Alberto Caeiro