"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Por tudo o que não disse

Por tudo o que não disse
sem saber, morria sempre um pouco.
Havia algo no não dito
e eu que só queria dizer tudo de uma vez
quando não houvesse mais tempo pra se pensar
e não houvesse mais espaço pra outra coisa que não amor.
Fiquei ali esperando a porta fechar
pra poder por um momento acreditar que ela nem sempre se fecha
enquanto aberta.
Esperei.
Fui de encontro a tudo.
Sem saber, morria um pouco.
Não quis acreditar que tudo era decidido por escolha
mas a razão só serve pra limitar a esperança enquanto o tempo leva aos pedaços todos os sonhos possíveis.
E temos que fingir estarmos noutro lugar
assim não se sente.
Sempre voltamos de onde nunca saímos
e é fácil entender isso
basta que olhe pra você agora.
E só voltamos quando esquecemos onde estamos.
Sem saber, morria sempre um pouco
e voltava sempre ao lugar onde queria estar, onde podia.
E a cada volta, perdida
por tudo o que não disse
uma parte do meu corpo.
Do teu corpo.
Lugar secreto de todas as minhas palavras.


domingo, 13 de novembro de 2011

No meu tempo


Não há mais o que escrever
nesse momento não mais
sei que não perdi a capacidade de sentir
sempre estou a me perguntar disso.
não, não perdi.
não perdi nada do que me fez, faz ser o que sou.
Mas, já não há o que escrever
sei que volto
talvez um dia eu volte a escrever sobre a vida
pode ser daqui a dois minutos
não sei quando.
Disso não se sabe. Acontece
a vida acontece.
vou e volto
sou e não sou
sinto e não sinto
sou todos os paradoxos possíveis
‘miragens idênticas da presença e da ausência’
e já não me preocupo com isso
sei que é possível fluir mesmo assim
e fico pra ver todo o final, todo começo.
no meu tempo, guardo o meu momento.
A angustia já não me leva pra outra direção
mostra que estou vivo.