"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Tudo tem um lugar


Não há nada novo no que sou

Por todas as vezes que quis, brinquei com os sonhos

Criei sentidos

Tem de haver ao menos uma maneira pra se deixar à vida

De não deixá-la escapar

Um jeito de olharmos para o que não sabemos

Somos todos os mesmos modos

Criamos as mesmas ilusões

Não há nada de novo no mundo

Por onde corro encontro sempre o mesmo não

Não!

Não há nada que nos faça esquecer

Tudo tem um lugar

Tudo fica disponível

Todos os medos que nunca superamos

Não há nada de novo em não querer ser

Os círculos não têm fim

Sempre se volta de onde não se sai nunca

E sempre se vai

E tudo está escrito com as mesmas palavras


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Fotografias


Acordo dos sonhos procurando algo que me prenda a essa realidade. Forço as aparências para que elas se contradigam enquanto finjo que sei. Tudo está guardado e ficará guardado, marcado no corpo, ainda que não queira. Fotografias que nunca se revelam, momentos.




domingo, 8 de agosto de 2010

O Guardador de Rebanhos II


O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, a amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...



Alberto Caeiro

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um pássaro perdido


Buscava no olhar

algo que lhe dissesse mais do que tudo o que já tinha sido dito,

por acreditar que sempre fosse possível captar algum sentido,

algo além dos muros que nos protegem.

Inevitável,

pois já não se falava mais do que pudesse causar algum inconveniente ao outro,

como se no outro houvesse a possibilidade do próprio fim,

como se usássemos as palavras para esconder aquilo o que realmente temos a dizer,

como se o outro fosse só o que quiséssemos que fosse.

Tinha a impressão de que se escondia tudo

pra que se pudesse manter a aparência de algo concreto.

Sentia-se perdido no meio de tantas impressões ligeiramente falsas.

Não havia mais onde se agarrar.

Restava a atenção para o que nunca era dito,

esperando encontrar o lugar das respostas.

Um pássaro perdido,

negou a própria natureza a procura de um sentido pra sua vida,

olhava o mundo abaixo das nuvens.

Porque querer chegar tão perto, se o que se espera de um pássaro é que ele voe?

Nunca houve respostas precisas,

nunca aquelas perguntas vão ter respostas.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Um corpo em chamas (Tempo de Viagem)

Ateou fogo ao seu corpo após tê-la amarrado numa arvore, assim não necessitava mais da verdade de que sabia existir em algum lugar por entre as palavras dela, que não eram ditas. As mentiras poupavam o tempo desnecessário, contornavam o incomodo lugar comum já não mais compartilhado. Ele sabia, queria amá-la, mas não havia mais espaço. Faltava o que lhe fora oferecido como condição e que nunca o convenceu completamente. Tarkovsky idealizava esse momento, onde um corpo em chamas pudesse demonstrar a falta e por algum motivo, a não realização dessa seqüência, o incomodava enquanto criador, pois ainda não fora capaz. A mentira transformada em chamas, queimando os últimos momentos da razão, como só possível num filme.

domingo, 18 de julho de 2010

Calma

Quero a calma suficiente para suportar a angústia que a falta faz. Para esquecer que estou presente no tempo e nas lembranças.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sob que máscara retornará o recalcado?

A Fábrica do Poema

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra
Tornei-me perito em extrair faíscas das britas e leite das pedras
Acordo
E o poema todo se esfarrapa fiapo por fiapo
Acordo
O prédio, pedra e cal, esvoaça como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo
E o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido
Acordo
Os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono
Nem dormir deveras
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?


Adriana Calcanhotto e Waly Salomão

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tudo o que é teu, leva!


Tudo o que é teu continua intacto

e passa pelo tempo que não passa nunca,

num só reflexo da memória.

Não há momentos bons ou ruins,

todos fazem sentir a presença,

o que me faz ser no absoluto de qualquer acontecimento cabível

e revelado num espaço infinitamente pequeno da lembrança e do tempo.

O tempo não esquece nem lembra,

tenho o passado e o futuro mas nunca o presente,

disso decorre a angustia por querer movimentar o passado em virtude do que já foi presente um dia.

Tudo o que é teu não pode ser mudado,

aquele encontro inesperado na calçada,

o encontro dos corpos

e nos lábios a força fundamental da vida.

Nada que foi em tua presença existe sem você.

São tuas as ruas,

o meu corpo,

tudo o que faz você aqui.

As palavras que nunca lembro

e que disseste possuída por mim.

Éramos dois vivendo pra um mundo impossível de solução.

Sem saber trocamos as lembranças em cada outono,

mas são sempre as mesmas atravessadas por paradoxos insolúveis.

Coisas que o tempo insiste.

Tudo o que eu tenho de ti é teu, leva.

Leva o tempo que deixaste em mim, o que te mantém,

leva.

Afasta de mim esse outro ser,

esse eu que não quer mais te querer,

leva o que é teu e deixa intacta a minha ilusão.

Agora sem mais pra sentir,

leva o tempo esquecido na tua lembrança,

cemitério de minhas mortes.


domingo, 4 de julho de 2010

Palavras

A palavra surge, dá o sentido provisório de uma verdade qualquer e foge, alterando o estado das coisas.

Suas mãos tocando meu ser

Sinto sua presença
Seus beijos
Seu querer dizer qualquer coisa que disfarce o pensamento
Sinto sua pele
Seus suspiros
Sua carne macia alimentando o meu desejo
Seu sorriso a esconder o tempo
Sinto sua boca
Seu cheiro em mim
Seus olhares
Sinto o calor do encontro
O inferno no silêncio
Sinto a agonia que outrora sentia
A espera do que já sei querer
Sinto suas mãos tocando meu ser
Sua falta.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Guardador de Rebanhos I

Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das estações a seguir e a olhar.

Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr-de-sol para a nossa imaginação, quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego porque é natural e justa e é o que deve estar na alma quando já pensa que existe e as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada, os meus pensamentos são contentes, só tenho pena de saber que eles são contentes, porque, se o não soubesse, em vez de serem contentes e tristes, seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes, por imaginar, ser cordeirinho (ou ser o rebanho todo para andar para andar espalhado por toda a encosta a ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), é só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol, ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz e corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, escrevo versos num papel que está no meu pensamento, sinto um cajado nas mãos e vejo um recorte de mim num cimo dum outeiro, olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho, e sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz e quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem, tirando-lhes o chapéu largo quando me vêem a minha porta mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol, e chuva, quando a chuva é precisa, e que as suas casas tenham ao pé duma janela aberta uma cadeira predileta onde se sentem, lendo os meus versos, e ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural.

Por exemplo, a árvore antiga à sombra da qual quando crianças se sentavam com um baque, cansados de brincar, e limpavam o suor da testa quente com a manga do bibe riscado.


Alberto Caeiro