"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)
Acordo dos sonhos procurando algo que me prenda a essa realidade. Forço as aparências para que elas se contradigam enquanto finjo que sei. Tudo está guardado e ficará guardado, marcado no corpo, ainda que não queira. Fotografias que nunca se revelam, momentos.
Ateou fogo ao seu corpo após tê-la amarrado numa arvore, assim não necessitava mais da verdade de que sabia existir em algum lugar por entre as palavras dela, que não eram ditas. As mentiras poupavam o tempo desnecessário, contornavam o incomodo lugar comum já não mais compartilhado. Ele sabia, queria amá-la, mas não havia mais espaço. Faltava o que lhe fora oferecido como condição e que nunca o convenceu completamente. Tarkovsky idealizava esse momento, onde um corpo em chamas pudesse demonstrar a falta e por algum motivo, a não realização dessa seqüência, o incomodava enquanto criador, pois ainda não fora capaz. A mentira transformada em chamas, queimando os últimos momentos da razão, como só possível num filme.
Sonho o poema de arquitetura ideal Cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra Tornei-me perito em extrair faíscas das britas e leite das pedras Acordo E o poema todo se esfarrapa fiapo por fiapo Acordo O prédio, pedra e cal, esvoaça como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido Acordo E o poema-miragem se desfaz Desconstruído como se nunca houvera sido Acordo Os olhos chumbados pelo mingau das almas E os ouvidos moucos Assim é que saio dos sucessivos sonos: Vão-se os anéis de fumo de ópio E ficam-me os dedos estarrecidos Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros Sumidos no sorvedouro Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita No topo fantasma da torre de vigia Nem a simulação de se afundar no sono Nem dormir deveras Pois a questão-chave é: Sob que máscara retornará o recalcado?
Sinto sua presença Seus beijos Seu querer dizer qualquer coisa que disfarce o pensamento Sinto sua pele Seus suspiros Sua carne macia alimentando o meu desejo Seu sorriso a esconder o tempo Sinto sua boca Seu cheiro em mim Seus olhares Sinto o calor do encontro O inferno no silêncio Sinto a agonia que outrora sentia A espera do que já sei querer Sinto suas mãos tocando meu ser Sua falta.
Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das estações a seguir e a olhar.
Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-de-sol para a nossa imaginação, quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego porque é natural e justa e é o que deve estar na alma quando já pensa que existe e as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada, os meus pensamentos são contentes, só tenho pena de saber que eles são contentes, porque, se o não soubesse, em vez de serem contentes e tristes, seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes, por imaginar, ser cordeirinho (ou ser o rebanho todo para andar para andar espalhado por toda a encosta a ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), é só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol, ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz e corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, escrevo versos num papel que está no meu pensamento, sinto um cajado nas mãos e vejo um recorte de mim num cimodum outeiro, olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho, e sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz e quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem, tirando-lhes o chapéu largo quando me vêem a minha porta mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol, e chuva, quando a chuva é precisa, e que as suas casas tenham ao pé duma janela aberta uma cadeira predileta onde se sentem, lendo os meus versos, e ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural.
Por exemplo, a árvore antiga à sombra da qual quando crianças se sentavam com um baque, cansados de brincar, e limpavam o suor da testa quente com a manga do bibe riscado.