"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




sábado, 26 de maio de 2012







O Guardador de Rebanhos IV


Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
Pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tendo ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o Sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós…
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...

Alberto Caeiro


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Viver é deixar...


'Eu tenho andado tão sozinho que eu nem sei no que acreditar e a paz que busco agora nem a dor vai me negar'



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Por tudo o que não disse

Por tudo o que não disse
sem saber, morria sempre um pouco.
Havia algo no não dito
e eu que só queria dizer tudo de uma vez
quando não houvesse mais tempo pra se pensar
e não houvesse mais espaço pra outra coisa que não amor.
Fiquei ali esperando a porta fechar
pra poder por um momento acreditar que ela nem sempre se fecha
enquanto aberta.
Esperei.
Fui de encontro a tudo.
Sem saber, morria um pouco.
Não quis acreditar que tudo era decidido por escolha
mas a razão só serve pra limitar a esperança enquanto o tempo leva aos pedaços todos os sonhos possíveis.
E temos que fingir estarmos noutro lugar
assim não se sente.
Sempre voltamos de onde nunca saímos
e é fácil entender isso
basta que olhe pra você agora.
E só voltamos quando esquecemos onde estamos.
Sem saber, morria sempre um pouco
e voltava sempre ao lugar onde queria estar, onde podia.
E a cada volta, perdida
por tudo o que não disse
uma parte do meu corpo.
Do teu corpo.
Lugar secreto de todas as minhas palavras.


domingo, 13 de novembro de 2011

No meu tempo


Não há mais o que escrever
nesse momento não mais
sei que não perdi a capacidade de sentir
sempre estou a me perguntar disso.
não, não perdi.
não perdi nada do que me fez, faz ser o que sou.
Mas, já não há o que escrever
sei que volto
talvez um dia eu volte a escrever sobre a vida
pode ser daqui a dois minutos
não sei quando.
Disso não se sabe. Acontece
a vida acontece.
vou e volto
sou e não sou
sinto e não sinto
sou todos os paradoxos possíveis
‘miragens idênticas da presença e da ausência’
e já não me preocupo com isso
sei que é possível fluir mesmo assim
e fico pra ver todo o final, todo começo.
no meu tempo, guardo o meu momento.
A angustia já não me leva pra outra direção
mostra que estou vivo.