Por tudo o que não disse
sem saber, morria sempre um pouco.
Havia algo no não dito
e eu que só queria dizer tudo de uma vez
quando não houvesse mais tempo pra se pensar
e não houvesse mais espaço pra outra coisa que não amor.
Fiquei ali esperando a porta fechar
pra poder por um momento acreditar que ela nem sempre se fecha
enquanto aberta.
Esperei.
Fui de encontro a tudo.
Sem saber, morria um pouco.
Não quis acreditar que tudo era decidido por escolha
mas a razão só serve pra limitar a esperança enquanto o tempo leva aos pedaços todos os sonhos possíveis.
E temos que fingir estarmos noutro lugar
assim não se sente.
Sempre voltamos de onde nunca saímos
e é fácil entender isso
basta que olhe pra você agora.
E só voltamos quando esquecemos onde estamos.
Sem saber, morria sempre um pouco
e voltava sempre ao lugar onde queria estar, onde podia.
E a cada volta, perdida
por tudo o que não disse
uma parte do meu corpo.
Do teu corpo.
Lugar secreto de todas as minhas palavras.
"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)
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