"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um pássaro perdido


Buscava no olhar

algo que lhe dissesse mais do que tudo o que já tinha sido dito,

por acreditar que sempre fosse possível captar algum sentido,

algo além dos muros que nos protegem.

Inevitável,

pois já não se falava mais do que pudesse causar algum inconveniente ao outro,

como se no outro houvesse a possibilidade do próprio fim,

como se usássemos as palavras para esconder aquilo o que realmente temos a dizer,

como se o outro fosse só o que quiséssemos que fosse.

Tinha a impressão de que se escondia tudo

pra que se pudesse manter a aparência de algo concreto.

Sentia-se perdido no meio de tantas impressões ligeiramente falsas.

Não havia mais onde se agarrar.

Restava a atenção para o que nunca era dito,

esperando encontrar o lugar das respostas.

Um pássaro perdido,

negou a própria natureza a procura de um sentido pra sua vida,

olhava o mundo abaixo das nuvens.

Porque querer chegar tão perto, se o que se espera de um pássaro é que ele voe?

Nunca houve respostas precisas,

nunca aquelas perguntas vão ter respostas.

Um comentário:

Carla Marinho disse...
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