"O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar, saber ver quando se vê, e nem pensar quando se vê nem ver quando se pensa. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender e uma sequestração na liberdade daquele convento de que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas e as flores as penitentes convictas de um só dia, mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nem as flores senão flores, sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores." (Alberto Caeiro)




sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Guardador de Rebanhos I

Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor, conhece o vento e o sol e anda pela mão das estações a seguir e a olhar.

Toda a paz da natureza sem gente vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr-de-sol para a nossa imaginação, quando esfria no fundo da planície e se sente a noite entrada como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego porque é natural e justa e é o que deve estar na alma quando já pensa que existe e as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos para além da curva da estrada, os meus pensamentos são contentes, só tenho pena de saber que eles são contentes, porque, se o não soubesse, em vez de serem contentes e tristes, seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes, por imaginar, ser cordeirinho (ou ser o rebanho todo para andar para andar espalhado por toda a encosta a ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), é só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol, ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz e corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, escrevo versos num papel que está no meu pensamento, sinto um cajado nas mãos e vejo um recorte de mim num cimo dum outeiro, olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias, ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho, e sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz e quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem, tirando-lhes o chapéu largo quando me vêem a minha porta mal a diligência levanta no cimo do outeiro.

Saúdo-os e desejo-lhes sol, e chuva, quando a chuva é precisa, e que as suas casas tenham ao pé duma janela aberta uma cadeira predileta onde se sentem, lendo os meus versos, e ao lerem os meus versos pensem que sou qualquer coisa natural.

Por exemplo, a árvore antiga à sombra da qual quando crianças se sentavam com um baque, cansados de brincar, e limpavam o suor da testa quente com a manga do bibe riscado.


Alberto Caeiro

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